A Ovelha Perdida

       A autora deste hino é Elizabeth Cecília Douglas Clephane.

    Elizabeth Cecília Douglas Clephane nasceu em Edinburg, Escócia, em 18 de junho de 1830. Era descendente da conhecida família Douglas dos romances de Sir Walter Scott. Era filha do xerife do município. Perdeu seus pais quando ainda era menina, e passou a morar com a sua irmã em Melrose, perto da antiga ponte mencionada em “The Abbot and The Monastery” (O Abade e o Monastério). Nesta cidade ela servia ao pobres e doentes. Ela e suas duas irmãs, viviam daquilo que achavam estritamente necessário, dando o resto aos necessitados. Venderam, inclusive, sua charrete e cavalo para esse fim. Elizabeth era afetuosamente chamada pela sua comunidade de “O Raio de Sol”. Era muito tímida e quieta, mas muito inteligente; nos estudos tinha sempre boas notas e era quase sempre a primeira da classe. Era amante dos livros. Gostava tanto de poesias que escreveu várias, entre elas a poesia deste hino. Em 1868, esta poesia chamada “The Ninety and Nine” (As Noventa e Nove) apareceu numa publicação chamada The Children's Hour (A Hora das Crianças). Mas sua poesia ficou famosa, na forma de hino, graças a dois homens: Ira Sankey e D. L. Moody.

    D. L. Moody é conhecido em todo o mundo pelas suas grandes campanhas de evangelização durante o décimo nono século. Sua vida e os seus métodos são estudados nos principais seminários teológicos do mundo. Igualmente famoso é o nome de Ira David Sankey, consagrado cantor de música sacra, que acompanhou Moody em suas campanhas de evangelização, cantando belos hinos e preparando o povo para ouvir as suas pregações. Provavelmente, nunca houve na história um cantor cujo nome tenha estado tão ligado ao do seu companheiro pregador como o de Sankey, excetuando-se, talvez, o dos irmãos Wesley.

    Sankey não foi um cantor comum, mas um que fez a letra dos seus hinos vibrar e viver dentro do coração do seus ouvintes. Quando cantava, o auditório ficava encantado, e muitas vezes comovia as pessoas até as lágrimas rolarem pelas faces. Foi Moody mesmo que afirmou: “Ira Sankey tem levado mais pessoas para oc céu com os seus cânticos do que as que tenho levado com as minhas pregações”.

    Em 1874, Moody e Sankey realizavam uma campanha de evangelização na Escócia. Estavam saindo de uma campanha em Glasgow, e iam para Edinburg, afim de realizarem uma campanha de três dias, a convite dos pastores daquela cidade. Antes de saírem, Sankey comprou um jornal, principalmente para ter notícias dos Estados Unidos, pois havia quase um ano que se achava afastado de sua terra natal. Grande, porém foi seu desapontamento ao perceber que o jornal só trazia publicado um sermão do pregador americano, Henry Ward Beecher, e nenhuma notícia de sua terra. Sankey atirou o jornal ao chão do trem, mas logo depois, antes de chegar a Edinburg, pegou de novo o jornal e começou a olhá-lo, quando de repente, notou uma poesia escrita no canto do mesmo. Era a poesia “The Ninety, and Nine”, de Elizabeth Clephane. Sankey disse: “Fiquei tão impressionado que chamei a atenção do Sr. Moody para esta poesia. Ele pediu que eu a lesse para ele, o que eu fiz com toda energia que possuía. Ao terminar, olhei para o meu amigo Moody para ver a reação que esta poesia teve sobre ele, mas verifiquei que não ouviu uma palavra sequer, tão preso estava à leitura de uma carta que havia recebido dos Estados Unidos”. Apesar desta experiência desagradável, Sankey recortou a poesia do jornal e colocou-a num livro.

    No segundo dia da conferência em Edinburg, o pastor Moody falou sobre o assunto “O Bom Pastor”. Depois pediu que um certo Dr. Bonar, autor escocês de vários hinos, falasse. O Dr. Bonar comoveu os ouvintes com uma breve mensagem de apenas alguns minutos. Ao final de suas palavras, Moody olhou para Sankey e perguntou: “Você tem um solo próprio para este assunto, com o qual possamos encerrar a reunião?” Sankey ficou perplexo. Pensou imediatamente no Salmo 23, mas desistiu, porque esse hino havia sido cantado várias vezes durante a conferência. De repente, Sankey ouviu uma voz dentro de si dizendo: “Cante o número que você achou no trem”. Ele porém pensou que isto seria impossível porque nenhuma música havia sido escrita antes para esta poesia. Mas aquela impressão forte esteve mais uma vez em sua mente, de que ele devia cantar aquelas belas e oportunas palavras que havia encontrado. Ele disse: “Colocando a poesia no órgão, à minha frente, levantei o meu coração em oração, pedindo a Deus que me ajudasse, afim de que o povo pudesse me ouvir e entender. Deixando as minhas mãos cair sobre o teclado, toquei o acorde de lá bemol e comecei a cantar. Nota por nota a melodia foi dada e até hoje nunca foi alterada”.

    Quando Sankey terminou de cantar pela primeira vez esta poesia com a música que conhecemos verificou logo que havia alcançado pleno êxito. O pastor Moody, com os olhos marejados de lágrimas, veio, evidentemente, comovido, e viu ainda o pedacinho do papel que Sankey cortou do jornal e que acabara de cantar. “Sankey, onde você achou este hino? Nunca vi coisa semelhante em minha vida”. Sankey, também, comovido respondeu: “Sr. Moody, este é o hino que li para o senhor ontem no trem, mas o senhor não ouviu”.

    A autora do hino já havia morrido em 1869, mas naquela noite de 1874, estava presente sua irmã, e foi grande sua surpresa ao ouvir a poesia cantada, que dias depois, enviou a Sankey uma carta agradecendo o fato de haver cantado a poesia de sua falecida irmã Elizabeth. Através das cartas que seguiram, Sankey descobriu o nome da autora do hino.

    Este hino tornou-se um dos hinos cristãos bem conhecidos em todo o mundo. Um do hinos missionários do qual se tem dito: “Apenas no último grande dia se conhecerá quantas ovelhas perdidas tem sido trazidas a Jesus por seu intermédio”.

    A tradução deste hino para o português foi feita em 1877 pelo também escocês Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah Pouton Kalley, os quais chegaram ao Brasil em 1855, e em 1861 publicaram “Salmos e Hinos”, o primeiro hinário brasileiro.